terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 19

Doía-lhe ver a extinção de alguns verbetes, como os acessórios sempre queridos: ombreiras, suspensórios, polainas, barbatanas, abotoaduras ou a feitura de: punhos duplos, bainhas debruadas, cós, colete, al.gi.. bei...ras.

Estes sons esvaiam-se como nuvens aquecidas pelo sol, sumindo... O uso de tais peças pelos jovens meninos, tinha o significado de um ‘bar mitzvah’ para o jovem judeu. A alegria em ganhar as abotoaduras que teriam sido do pai do pai... A maioridade - para o menino felizardo - estava alcançada.

Isto tudo desapareceria?

Como figurinistas de uma ampla peça de teatro, chamada ‘Vida’, estes alfaiates jamais poderiam faltar. Gennaro passou as mãos pelos olhos cansados. Furtivas lágrimas vieram lhe regar a pele seca das faces.


Era o consolo de Gennaro! Lembranças dos ditos sobre o Luigi, seu filho Ambrósio, – vindos da Itália - e o neto Dante – nascido no Brasil -, a família Toniazzi dedicada desde os primórdios da cidade a arte de cozer. O João PIzzoli a costurar as centenas de fatiotas incessantemente.

O Antonio Paganelli e seus dedicados filhos, a somarem na arte do ofício. De 1875 até 1935, cem mil italianos, imigrantes por opção e necessidades, aportaram no nordeste da província. Muitos eram ‘sarto’ e souberam dignificar a função. –‘Sobreviveríamos?’.

Gennaro voltou ao trabalho, numa bela camisa xadrez, prometida ao neto de Clodoveu para aquela semana.


To be continued

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 18

Garibaldi – O declínio

As novas significações atribuídas pela sociedade moderna ao que são únicas e singulares vale indagação se no campo da sociologia, do mundo da produção, o produto do trabalho gerado numa alfaiataria, estaria porventura a merecer a atenção da característica do mercado, ávido pela apropriação e exploração do que é manual, do diferente, do que está em extinção?

Depois de visitarmos a conexão temporal que nos permitiu compreender a contradição entre o envelhecimento do ofício numa sociedade determinada e afoita pelo moderno, pela transformação, pelo mais rápido, nos sentimos no dever de adentrar ao mundo da alfaiataria para conhecer como se esta visão de mundo processava suas dinâmicas.

Ao fim de uma época áurea na arte da alfaiataria, Gennaro estava beirando os 80 anos. Alguns amigos de ofício ainda mantinham um espaço reservado em suas casas, onde guardavam máquinas, agulhas, moldes, móveis pertencentes à alfaiataria ou guardavam com zelo, antigos utensílios do trabalho, - tal como a tesoura preferida, o dedal, a agulha de uso pessoal -. Ele também o faria assim.

Nisto viu Clodoveu se aproximando, trazendo um menino pela mão... O perfume dos panetones já flutuava pelos ares. Estávamos em dezembro... Enquanto houvessem clientes, haveria esperança.

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To be continued

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 17


Garibaldi – década de 50


A Segunda Grande Guerra, notícias de uma Europa destruída, o estigma da raça inimiga, a desconfiança dos pátrios, a escassez dos panos e tecidos tradicionais: linho, lã, seda, algodão, gabardina ou astracã. Parecia estranho, mas quanto mais faltavam tecidos para confecção dos ternos, mais roupas prontas surgiam nas lojas.

Mas havia algo mais surpreendente para as observações de Gennaro. Outro fator estava minando sorrateiramente o seu ofício. Tempo! O tão vagaroso e sonolento tempo de outrora, subitamente tornou-se apressado. Ninguém mais o tinha à vontade. Os meses transformaram-se em dias, estes em horas e estas em minutos. Para um casamento, antes se tinha meses para os aprontos, agora... Apenas semanas. Algo fizera a sociedade andar depressa, sem paradas para um bate-papo, sem tempo para nada.

No entanto se tivesse que optar por outra profissão, esta sua arte seria de fato o que orientaria a mudança na forma de ganhar a vida, jamais se distanciando completamente do ambiente configurado pela alfaiataria ou mesmo dos instrumentos e objetos usados no trabalho. Não saberia viver sem eles.


To be continued

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 16

Os antecedentes da Revolução de 30 no Brasil

Quando tudo parecia estar calmo, permitindo uma vida pacífica, com a natureza contribuindo com boas estações sazonais, as colheitas sobejas, o vinho espumante fazendo sucesso no mercado, a estabilidade emocional entre os italianos ‘formadores de opinião’, algumas frases, uns nomes nunca dantes ouvidos, começavam a circular pela alfaiataria de Gennaro, com os clientes tomando partido ora de uma, ora de outra opção.

-‘Oligarquias, elites, sitema capitalista, quebra da bolsa em Nova Iorque, intervenção do Estado na economia, Washigton Luiz, Getúlio Vargas, Prestes. O momento previa previa confrontos.

Sob um clima de desconfiança e tensão, o candidato Júlio Prestes foi considerado vencedor das eleições daquele ano. Mesmo com a derrota dos liberais, um possível golpe armado ainda era cogitado. Com o assassinato do liberal João Pessoa, em 26 de julho de 1930, o movimento oposicionista articulou a derrubada do governo oligárquico com o auxílio de setores militares.

Depois de controlar os focos de resistência nos estados, Getúlio Vargas e seus aliados chegam ao Rio de Janeiro, em novembro de 1930. Iniciando a chamada Era Vargas, Getúlio ficaria por quinze anos ininterruptos no poder (1930 – 1945) e, logo depois, seria eleito pelo voto popular voltando à presidência entre os anos de 1951 e 1954.

Seria o começo do fim?

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 15

Garibaldi - 1930

Nota-se que num mudo em que grandes transformações bélicas, tecnológicas e de costumes, eram anunciada, silenciosamente ocorria um processo de desvalorização do ofício como arte.

Contradições que vieram sendo trabalhadas para se criar a trocar entre o talento, do ‘saber’ do artesão, pela eficiência da técnica e da superprodução. No caso da alfaiataria, a vinda da roupa pronta e acessível, nas casas de moda ou magazines, seria a ‘vilã’ causadora do desprestígio da categoria.

Gennaro já observara que todos em busca de roupa nova, teriam ç feitio em poucos tamanhos do manequim – pequeno, médio, grande ou extragrande -. Seus colegas alfaiates ainda teimavam dizer que cada indivíduo tinha seu tamanho próprio. Este paradigma iria botar um fim na profissão.

A partir da chegada da roupa feita, Gennaro ouvira que na capital e cidades maiores, muitos alfaiates tiveram que fechar suas alfaiatarias ou criar estratégias de

Sobrevivência, se adaptando como trabalhadores assalariados em grandes redes de lojas, atuando em pequenos consertos. Outros, após cerrar as portas da alfaiataria se vieram na condição de ir trabalhar como vendedores em lojas de roupa.

Mas outra revolução estava a caminho...

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 14

Garibaldi - 1923
Nestas primeiras décadas do século XX, palcos de períodos com grandes tensões nas estruturas mundiais, tanto quanto o aspecto econômico, como político e social, a convivência entre o novo e o pós-moderno, teria produzido várias situações de cunho beligerante para estas gerações, sejam elas nascidas nos países ditos centrais, seja em países de desenvolvimento diferenciado como o Brasil.
-‘ E então Gennaro, a favor ou contra?’ Era o intendente Acauan chegando ao seu estabelecimento.
-‘Olá doutor! Nem chimango, nem maragato. Muito antes pelo contrário...Aqui vale o gosto do cliente!’, replica Gennaro. Ambos desatam a rir.
Brincadeiras à parte, muitos conceitos novos e nomes diferentes estavam rondando a colônia e a cidade: Júlio de Castilhos, Assis Brasil (chimangos), Borges de Medeiros (maragatos), Zeca Neto, lenços vermelhos ou brancos, degolas, assisistas, vingança pelas escaramuças de 1893, tiroteios – a casa de Vicente Dal Bó fora crivada por balas -. No ar prenúncios de mudanças.
Qualquer indecisão ou má escolha poderia ser fatal. A Prefeitura Municipal – inclusive -, teve uma grade colocada nas escadaria, por ordem do intendente.
Corria o boato que os maragatos invadiriam Garibaldi e com receio de que ocupassem o Gabinete, o intendente ordenou a colocação deste obstáculo. A invasão ocorreu, houve troca de tiros e arruaças. Os maragatos assaltaram o clube “Borges de Medeiros” e com a sua imagem, desfilaram pela cidade, cantando vitória.
A Itália definitivamente estava ficando para trás na memória do imigrante....
Pelo menos a comunidade reconstruira o templo incendiado e logo haveria a sagração. Com a festa se aproximando, ternos novos para todos. O trabalho sobraria para os alfaiates. Em 15 de março de 1924, Dom João Becker consagrou o templo e o considerou como sendo um dos mais artísticos, do Rio Grande do Sul. O responsável técnico foi o Engº. Agostinho Mazzini.


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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 13


Garibaldi – 1920
Quinta-feira fatídica, 18 de junho. A cena era ‘dantesca’. Os sinos haviam dado o alarme. O povo acorrera imediatamente. A igreja matriz estava em chamas. As labaredas consumiam velozmente as madeiras da capela-mor e seu altar, da sacristia e seus armários. Alguns fiéis se apressaram em retirar as imagens da nave principal. Gennaro – vindo da alfaiataria - se incorporara à corrente humana que do depósito de água da Usina Municipal, transportando baldes cheios e o retorno vazios, numa quase inútil batalha contra o fogo. Anos de labuta, quermesses, dinheiro arrecadado e capilarmente recolhido se transformando em cinzas. O incêndio seguia passando da sacristia ao lado do evangelho para a capela mor e dali para o corpo principal do edifício.
Gennaro, entristecido, pensava no sacrifício de todos e da cidade que ainda sentia o impacto econômico deste empreendimento gigantesco. Cerca de seiscentos contos de réis em poder das chamas. Todos haviam colaborado para tal montante e o comércio, mais que todos, soubera dedicar sua cota.
Súbito, três jovens e amigos seus, Comunello – o Antonio -, Balconi – o Eduardo e Beal – o Agostinho -, com machados nas mãos, subiram no telhado. Abririam um lapso no caminho do fogo, impedindo seu avanço. Corajosamente, lá no alto de dezesseis metros, arrancaram telhas e romperam a estrutura de madeira. Como milagre, o fogo estancou sua fúria neste lugar, preservando todas as naves.
Ao menos a comunidade teria menos que reconstruir. ‘Grazie San Gennaro!’.
Garibaldi, foto na escadaria da Prefeitura Municipal, início da década de 40,após a ordenação de um sacerdote.

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Garibaldi - Início da década 40

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 12

Itália 1875

O aprendizado dos ofícios nas escolas antiqüíssimas destacava-se há longo período histórico. Nestes estabelecimentos, os mestres eram os guardiões dos saberes e os aprendizes, a sucessão, a virtuosidade da continuidade da Arte, do ofício. Com o declínio da Arte, entendida como ofício, e o advento da atividade fabril, uma nova lógica do trabalho se instaura no ambiente urbano.

Brasil 1888

Já na nova pátria, tanto Pietro como outros tantos artesãos, companheiros de ofício ou conterrâneos dedicados a outras lides artesanais – todos atraídos pelas cartas de amigos e parentes ao novo Eldorado -, perceberam logo a dura realidade. Nada ali seria fácil.


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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 11

Garibaldi – 1905

Gennaro chegara cedo ao prédio onde seu Pietro tinha a alfaiataria. Naquela manhã fria de maio, sábado que antecedia o primeiro domingo do mês, o 'nada' por fazer no trabalho, só restava aguardar um cliente qualquer. O velho mestre o aguardava sentado num canto do aposento. Mostrava-se cansado. Raro vê-lo assim. Somente um novo trabalho o animaria. Então Pietro chamou-o dizendo:

-‘Sente-se aqui perto Gennaro!’

O abatimento era palpável. O vetusto artesão tinha o olhar longe. Estava voltado para a sua querida península, para suas raízes deixadas longe há tanto tempo. Como se numa aula, ditou para o aprendiz:

-‘Nostro mestieri, sarto.... ’

Engasgou-se, tossiu e reiniciou o monólogo, cuidando não machucar as palavras desta nova língua, tão estranha e tão diferente, impossível de gesticular com as mãos, como na sua adorada língua materna.

-‘ Nosso ofício, alfaiate está sem união. Lá na Itália, antes de vir, tínhamos em Toscana a chamada Arte, em Roma era o Colégio, na Lombardia o Consulado, no Piemonte a Universidade, na Emília-Romana a Companhia, Grêmio na Sardenha, Confraria ou Irmandade no Vêneto, as Mestranças na Sicília. A educação ou o ato de transmitir o conhecimento trocava de nome, mas não de essência... ’ As forças faltaram-lhe. Sorrindo, fixou o olhar no infinito, murmurando: -'miracolo San Gennaro!'. Frei Bruno de Guillonay que o perdoasse, não estaria presente na quermesse para arrecadar fundos visando a reconstrução da igreja matriz. Partiu!

Chocado, Gennaro compreendeu o quanto devia a este velho mestre e como ele amava suas origens e o quanto lhe foi prazeroso ensinar.

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 10


Garibaldi - 1917

A harmonia de pensamentos entre a vida e o trabalho, com as duas dimensões andando como se uma só, fizera Gennaro optar pela lógica de viver do ofício escolhido pelo pai.

No início de seu aprendizado, observava que com as mudanças nos tipos de tecidos, dos aviamentos, nas máquinas e acessórios e com o crescimento da demanda, a atividade prometia.

Uma alfaiataria manteria preservados sua existência e projetos de vida, pois no domínio dos ofícios artesanais, se mantém fiel contato com a arte do fazer, tanto no significado histórico como nas particularidades das operações cotidianas. Pietro impregnava-o com tais saberes. O mestre-artesão em seus ensinamentos ao aprendiz, derramava conhecimentos indeléveis. O processo parecia miraculoso e nada indicava estremecimentos. Os poderes temporais e espirituais mesclavam-se. Desta maneira, se vida e trabalho caminham juntos, convinha lembrar o sentido da vida e o envelhecimento, de como todos se comportariam em respeito à sua opção.

Lá na Itália, os fiéis bradavam os milagres a retornarem.

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mestieri: sarto - 9

Antes de prosseguirmos, nossas boas vindas para este advogado-poeta mineiro a honrar o blog.

Seguindo:


Garibaldi - 1917

-‘Capriche no meu traje de núpcias Gennaro! Ainda trarei um neto para fazeres uma roupa contigo!’. A voz e a risada o trouxeram à realidade. Clodoveu ainda insistiu: -

-‘Não me faltes ao convite hem!? ’

Garibaldi 1888

- ‘La liquefazione del tessuto durante la cerimonia è ritenuto foriero di buoni auspici per la città e per tutti quanti; al contrario, si ritiene che la mancata liquefazione sia presagio di eventi fortemente negativi e drammatici per noui altri’.

A voz do velho pai repicava em sua memória com tais palavras. As cartas demoravam quatro meses ou mais e as notícias sobre os presságios custavam a chegar às colônias de Garibaldi.

Recordava a decisão em aprender um ofício na cidade. Os invernos rigorosos, as geadas causticantes a queimar os brotos ou floradas, as chuvas copiosas a estragar o milharal, a chuva de granizo a esmagar com gelo as plantações, guiaram o pensamento paterno. Falaria com Pietro, um mestre artesão alfaiate, conceituado na cidade. Seu filhoGennaro seria aprendiz de alfaiate!

Três anos seguidos sem o milagre de San Gennaro deixava-o em pânico.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 8


Garibaldi - 1917
Absorto enquanto tomava as medidas para a confecção de mais uma ‘fatiota’ para o Sr. Clodoveu, Gennaro estava com a mente longe. Via-se ainda moleque.
Garibaldi - 1900
Trabalhava muito na colônia para ajudar o pai. Acordava às cinco horas da manhã, inverno ou verão. Era dentre os irmãos, o responsável por tirar o leite das vacas e ajudar a mãe em algumas tarefas. Mesmo assim, conseguia brincar um pouco. De pé no chão – quando o tempo estava quente - correndo pelo meio do mato ou - quando frio e chuvoso - fazendo cestos de vime no celeiro que o pai insistia chamar de 'granaio'. As sete horas, ia para a escola com as irmãs mais velhas. Caminhavam quilômetros para chegar ao colégio da congregação de São José.
Quando retornavam, trocava de roupa em casa e ia direto para a lida com o pai. E aí, era o trabalho de lavoura, do arar, dos milharais, dos parreirais, das podas e cuidados da horta, até o anoitecer.
Garibaldi - 1900
Anotando as medidas cuidadosamente em seu bloco, nem reparava o quanto seu amigo e cliente havia engordado. Era daqueles dias em que vinham à sua recordação de onde surgira seu nome, quais datas a zelar, meditar e orar pela família na Itália - como o pai lhe ensinara -, com os préstimos obtidos pelo sangue liquefeito do mártir.
Itália - 1875
Seu pai Antonio vindo da península, assim como o seu Bartholomeu, pai do Clodoveu, dizia:
‘Tre volte l'anno (il sabato precedente la prima domenica di maggio e negli otto giorni successivi; il 19 settembre e per tutta l'ottava delle celebrazioni in onore del patrono, ed il 16 dicembre), durante una solenne cerimonia religiosa guidata dall'arcivescovo, gli fedeli accorrono per assistere al miracolo della liquefazione del sangue di San Gennaro ‘
A nona – avó paterna - que ficara com o nono – avô paterno - em Quingentole -Mantova, era natural de Napoles e profunda devota do padroeiro da cidade. O pai batizara-o para homenageá-la. Antonio e Bartholomeu vieram ao Brasil ainda crianças. Seus pais viram os trabalhos de seus barcos-moinhos, restringidos ao máximo pelo governo italiano. Havia o risco de assoreamento total no leito do rio Pó, dado o volume de cascas dos cereais ali jogadas. O Brasil surgiu como salvação.
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 7

Viagem através do tempo, pela moda da vestimenta...

Fotos da Itália em 1880, Garibaldi no fim do século XIX e início do século XX, mostram os trajes a cada época.

Itália - 1880
Garibaldi - 1890


Garibaldi 1895
Garibaldi - 1905
Garibaldi - 1910
Garibaldi - 1940
















sábado, 27 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 6

–‘Uma bela camisa xadrez para o cavalheiro!’, disse o idoso.
Como mágica surgiu no balcão um rolo com tecido grosso, uma flanela, de estampa quadriculada gritante, vistosa ao extremo e que certamente só uma criança usaria.
-‘Um pensador inglês afirmava que o traje influencia
o pensamento da sociedade. ’, emendou o alfaiate, com ar orgulhoso.
Súbito, aromas de uma cozinha próxima se destacam na confusão.
-'Almôndegas e pimentão! ’, exclama o pequeno.
-‘O que é almôndega, o que é pimentão?' , retruca o velho.
-‘É a tua polpetta, é o teu peperone!!', solta o meninote. Todos caem na gargalhada.
Típico dos homens, o aceite sobre a oferta do pano foi imediato, tanto pelo avô como pelo neto. Não havia lugar para outras amostras.
Tomadas as medidas, marcado o dia da prova, jamais o menino sentiria emoção igual àquela tarde.
Dias após, com a camisa pronta, colarinho e punhos armados, mangas compridas e botões grossos, aquele xadrez seria um troféu único e exclusivo a exibir.
Ao se despedir do vô - pouco tempo depois -. beijando-lhe as mãos geladas, já no ataúde, todos estes fatos voltaram à sua nemória.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 5




Nos caminhos escolhidos, passavam ora pelas costureiras: a dona Geni Santarosa, a dona Marietina; ora pelos alfaiates: seu Natal Prancutti, o Toniazzi, o João Balbinot, o seu Luiz Zamboni

Num destes périplos pela cidade, certo dia o menino foi levado para dentro de uma alfaiataria. Ali, numa pequena peça de poucos metros quadrados, parcamente iluminada, empilhavam-se: o balcão rústico, as prateleiras com vários rolos de tecidos escuros e riscados, o ferro de passar fumegante num canto do chão, aquecido pelo carvão em brasa, réguas de madeira - amareladas e inelegíveis pelo uso -, fitas métricas puídas, várias tesouras enormes, pedras para riscar e marcar o pano, almofadas cravejadas de alfinetes, a máquina de costura PFAFF a pedal, dois manequins sem cabeças ou braços portando casacos semi-acabados e o alfaiate.

Sorridente, quase completamente calvo, saiu detrás do balcão e veio cumprimentar ambos, avô e neto.

Conhecidos na França como ‘Tailleur’, na Itália por ‘Sarto’, na Espanha por ‘Sastre’, (do latim Sartor, Sarcire, coser), em Portugal revelou-se sua ligação ao mundo árabe, ao adotar ao ofício um nome derivado da palavra árabe Al-Kaiat ou Al--Kaiiat, do verbo Khata que significa coser. Independente da designação, os alfaiates desde a antiguidade clássica tinham a exclusividade do corte e costura das diversas peças de roupa, tanto masculinas, como femininas. Privilégio que mantiveram até o século XVII.

Este século costuma ser apresentado como a época de ouro da alfaiataria. Muitos dos símbolos do poder passavam então por um vestuário de aparato, e este dependia em grande medida da arte e da técnica de cada mestre alfaiate.

Sob o impulso da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, caminhou-se inexoravelmente para a liberdade no exercício do trabalho. Apenas em 1817, os alfaiates conseguem que lhes seja permitido adquirirem os tecidos para o exercício do seu ofício. Passados alguns anos , em 1853, é constituída na cidade do Porto - Portugal, a Associação dos Alfaiates desta cidade e a primeira a abandonar os princípios corporativos que remontavam à Idade Média. Em Setembro deste ano, é criada em Lisboa, a Associação dos Alfaiates Lisbonenses. Estavam encontradas as novas organizações profissionais juntando mestres e aprendizes, proprietários e trabalhadores. A Europa ditava as normas do ofício e por consequência, as imigrações difundiriam a transformação.

To be continued

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 4


Nossa saudação para nossa mais nova seguidora Elenita. Seja bemvinda.

Prosseguimos!

Pelas avenidas e ruas por onde caminhavam avô e neto, a história se fazia presente. O tempo recuava ao som das palavras do ancião, recordando fatos ou pessoas.





Frisava o enorme desenvolvimento já em 1884, quando a Colônia de Conde D’Eu toma o conceito de ‘Freguesia’, desmembrando-se de Estrela e dois anos após, 1886 - em 1º de setembro – foi erigida a primeira capela.

Em 1896 chegavam da França os capuchinhos para fundar a escola seráfica, formadora dos primeiros frades brasileiros.

1898 - Em 23 de dezembro, as Irmãs da Congregação São José de Mouthier - França sedimentam a presença educacional e cultural do município, com a sua primeira missão em solo brasileiro.

1900 – 31 de outubro –, Garibaldi toma o título de município. O mais antigo pólo da colonização italiana da província. Sua história tem o contorno do heroísmo, tal o guerreiro dos dois mundos mitificou entre nós – Giuseppe Garibaldi.

1904 - Os Irmãos Maristas fundam a Escola Santo Antonio.

A cidade de Garibaldi estava sendo moldada, atraindo incontáveis jovens estudantes de outras paragens, engrossondo as fileiras intelectuais da região.

1918 - A estação férrea foi inaugurada. No ano seguinte o ramal foi estendido até Bento Gonçalves. Em 1920, passou para o Governo Estadual, formando-se a Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Na cidade foram construídas as oficinas gerais de toda a província, para manutenção e conserto das locomotivas e vagões.

O neto absorve as palavras do avô como lição, apesar de não ter ainda cinco anos.

To be continued


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 3

Outro dos percursos, enviesando a rota costumeira, seguia até o Correio em busca de alguma postagem. Dali, cruzando a ponte sobre o límpido Marrecão, bordado pelos chorões, rumo até o armazém do seu Mânica, o estabelecimento do seu Gallina, a ferragem Cisilotto, seu Antoniazzi e na volta, um pulo na ferraria do primo Tercílio.

Não raro, em dia de pouco sol, uma ida até as cantinas, abraçar os conhecidos: Cooperativa Garibaldi – um portento -, Carraro e Brosina, George Aubert ou Peterlongo. Como eram muito distantes, fazia-se uma por vez. Sempre havia o tempo para cultivar a amizade.

Pelo caminho, nas manhãs, uma das distrações era adivinhar o perfume culinário que assomava os ares, numa disputa sobre quem mais acertava:

- Osmarim!

–‘O que é osmarim?’

-‘É o teu alecrim!’ – disse o vô. Risos

Toucinho, alho porró, salsão, cebola e alho refogados com tomates, orégano, sálvia, mangerona, mangericão, cominho, coentro, manteiga fritando, batatas e carne assadas, rúcula ou agrião recém colhidos, pão saindo do forno de barro. As sopas e canjas. Um festival aromático que antecedia o almoço. Nas tardes, eram os odores doces das frutas em passas e açucaradas, descansando em bandejas de vime nas janelas, dos bolos e caramelados. O café moído na hora e coado em água fervente, exalava seu perfume para longe.

O trajeto do dia seguinte, iria até a Ermida. Visitariam o seu José Zoppas, iriam tomar a benção na Igreja Matriz, dar um abraço no Mereb e passear na praça central.

To be continued

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mestieri: sarto - 2

O avô contava sempre a história da cidade. O neto ouvia atento.

1870 – Província do Rio Grande do Sul – Ato do seu presidente – João Sertório – cria pólos para povoamento e colonização do planalto serrano no estado. As sedes de assentamentos e divisões são criadas: Conde D’Eu e Dona Isabel.

1873 – Segundo alguns registros de historiadores, foi o ano da chegada dos primeiros imigrantes, provindos do Tirol. Eram setecentas pessoas, com a índole agrícola e pastoril... Algumas famílias suíças – cerca de quarenta -, já estavam aportadas na região. Os italianos acompanhados por um sacerdote, padre Bartholomeu Tiecher, deram início a civilização. A primeira família tomou assento: Cirillo Zamboni, esposa e filhos.

Em poucos anos, os frutos da terra: uva, vinho, milho e da criação: aves, suínos e gado leiteiro, catalizados pelo cooperativismo, impulsionam o pólo Conde D'Eu para um progresso não imaginado. As cartas entre os dois países – Brasil e Itália – indo e indo ao balanço dos vapores, pipocavam com anseios de mais e mais conterrâneos virem à nova pátria.

Da ocupação colonial, a sede do município já clamava pelas profissões urbanas: ferreiros, marceneiros, carpinteiros, mascates, tanoeiros, pedreiros, sapateiros, barbeiros, padeiros, açougueiros, serralheiros, alfaiates e outras tantas. Com a moeda girando velozmente, encadeia-se um intransferível eldorado.

To be continued

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mestieri: Sarto / Ofício: Alfaiate 1

Rua Buarque de Macedo - Garibaldi - setembro 1952

Um resgate de memória, com incentivo da pesquisa, originará as linhas a seguir. É o retorno às origens da arte de um ofício extinto - a alfaiataria -, mas que marcou toda sociedade no fim do século XIX, início do século XX.

GARIBALDI RS BRASIL - Início da década de 50
OFÍCIO: Alfaiate
MESTIERE: Sarto
O menino sempre aguardava o avô paterno, encostado no portãozinho de entrada da casa. Ficava ali por minutos, ouvindo – seriamente – o tossir e escarrar ofegante do ancião lá dentro. Após alguma angústia, surgia-lhe a figura querida. Gordo, bonachão, sorridente e carinhoso, o velhote pegava na mão do piá e saíam felizes os dois para a caminhada do dia. Faziam todos os dias, roteiros variados, como um ‘tour’ para saudar os conhecidos.
Um dos roteiros preferido, seguia pela rua Buarque de Macedo. Via importante que procedia de outras cidades e ia para outras tantas. Era a veia jugular da região. No perímetro urbano, estavam o cemitério - campo do descanso das lides terrenas -, a oficina e chapeação do Dante Montemaggiore, a família Bonotto - tios e primos -, o Colégio das Irmãs de São José, a Associação Comercial, o Açougue, a pensão da dna. Itália, o posto de combustíveis, o Hotel Pieta, a loja de tecidos do seu Debiasi, o baratilho do Mottin, os Nehme e os Koff, a fundição de sinos dos Bellini - famosa no país todo -, a farmácia do D’Arrigo, outro açougue, a sapataria, seu Rossoni, a loja dos De Conto, seu Pizzatto, a farmácia do seu Urbano Jung, o médico da cidade - o dr. D'Arrigo -o bar-café Luna Park da dona Marieta Comunello – vó materna do piá deste relato, a barbearia do Zaro, a padaria do Pezzini, o Banco da Província, o armazém do Marangon, o seu Cattani, a casa dos Ponzoni, a casa da professora de piano, o cinema Trianon, o hotel dos Mombach, a bica de água - sempre corrente e sob a sombra dos cinamomos -, os chorões e o lajeado do arroio Marrecão onde senhoras lavavam roupas e a curva da via indo para a Alfândega..Este roteiro acabava ali. Um bom descanso e o retorno.
O guri exibia orgulhoso o avô e este mais orgulhoso ainda, exibia o neto. Uma parceria com cumplicidade.
to be continued

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Uma nova pátria ! - 6

Uma nova pátria !

Somente algo extraordinário nos faria trocar de solo-mãe. Como deixar para trás quem nos recebeu ao primeiro sopro de vida? Seria o mesmo que renegar o seio que alimenta. Mereceria um estudo aprofundado... Abraços a todos.

Hoje a identificação dos personagens que viveram o relato. São eles:
Lorenzo e Madalena Ponzoni
Da Itália
Lorenzo Ponzoni – pai de Carlo
Madalena Galli Ponzoni – mãe de Carlo
Marcos Masseroni – pai de Maria Santa e Luiz (Gigio, também chamado pelas crianças de zio Bigio.)
Lúcia Ponzoni Masseroni – mãe de Maria Santa e Luiz (Gigio)
Imigrantes
Carlo Ponzoni – Esposo de Maria Santa
Maria Santa Masseroni Ponzoni – esposa de Carlo
Luiz Masseroni – Gigio – Irmão de Maria Santa
Do Brasil
Elisa Zamboni Masseroni – esposa de Luiz Masseroni (Gigio)
Os filhos de Carlo e Maria Santa
Therezinha Ponzoni Tarrasconi – esposo Clemente
Gomercindo Ponzoni – esposa Berenice
Santo Ponzoni – esposa Tereza
Adilce Lucia Albina (Dirce),
Celeste Ponzoni – esposa Anna Zottis
Elide Ponzoni Cerri – esposo Ernesto
Marcos Lourenço Ponzoni – esposa Anna Barrichello
Ana Ponzoni Ghidini – esposo Ernesto
Linha do tempo das exéquias – Pesquisa da historiadora Profª. Elenita Girondi - Arquivo Histórico - Prefeitura de Garibaldi RS
Ferramentas e instrumentos de Carlo – Encontram-se intactos em Nova Prata, com projeto de museu.
Episódio do elefante Lelé: fato verídico acontecido em Garibaldi, no início da década 40 e testemunhado por minha mãe - então adolescente - e, - além de outros -, por Leda Ponzoni Balzan e Neuza Ponzoni – ainda crianças – filhas de Marcos Lourenço Ponzoni. Este fato me foi narrado, de forma atemporal e sem mútuos conhecimentos. As pessoas citadas moravam à época, em casas vizinhas...
A foto no texto é do paquiderme Lelé, do Circo Holdem, tirada por Mário Accorsi e oferecida para Nestor Baptista Accorsi.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma nova pátria ! - 5

03 de setembro de 1940 – Como encanto Gigio viu-se diante da bela casa onde residiam seus sobrinhos. Construída em 1927 pelos filhos homens de Carlo, primava pelos ricos detalhes ornamentais e por suas belas sacadas, além dos vidros coloridos.

Gigio pensou no orgulho de Carlo e Maria Santa se ainda vivessem. Nos fundos havia a marcenaria da família, especializada em móveis e esquadrias. Pela distância do porão em pedra até o sótão, media-se a imponente estrutura do imóvel.

Um estranho bem-estar tomava conta de seu velho corpo de 73 anos. As dores constantes haviam sumido. Os perfumes no ar anteviam a primavera. Gigio estava liberto..

Um alvoroço repentino sacudiu a paz. Crianças, provavelmente filhos de Santo e Tereza, Gumercindo e Berenice, Celeste e Rosa, Marcos Lourenço e Anna, - pois as filhas moças haviam se mudado para outra cidade-. corriam desabaladamente. Gritos de surpresa subiam aos ares. Adultos clamavam para terem cuidados.

Ninguém pareceu notá-lo.

A sombra de um enorme elefante passou na calçada. Fugido de um circo, havia subido a escada de pedra que ladeava a casa, seguindo rumo às hortaliças da vizinhança e para roubar pães quentinhos, direto no forno de barro da padaria próxima dali. O domador desesperado gritava: ‘Ca’mon Lelé! Ca’mon Lelé!, sem ser ouvido pelo paquiderme.

O rebuliço da turba sufocava a normalidade. Gigio reparou então, num casal de jovens, acompanhado por uma bela moça. Vinham todos em sua direção, rindo e conversando. Era Carlo, com Maria Santa e Elisa. Abraçaram-se e de mãos dadas começaram a levitar. Foi quando olhou seus reflexos nos vidros coloridos da casa. Estavam todos jovens, belos e sorridentes. Começariam outra jornada.

To be continued

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma nova pátria ! - 4

Mais um seguidor! Bemvindo Miau Mafia...

Seguimos com a saga de nossos imigrantes. Ao final identificarei cada personagem.

Meados de 1915. Os filhos homens e as filhas moças eram a alegria de Carlo. Naquele dia sua memória chamou Maria Santa. Com saudades recordou os ‘carciofi’ (pronuncia-se cartjiofi - alcachofras) que apenas ela sabia deixar tenras, tal as ‘mamoles’ (alcachofras de folhas sem espinhos) da Itália. Não via a hora da primavera chegar para saborear uma vez mais os ‘carciofi’. Achava engraçado como se modificara a pronúncia deste quitute entre os próprios italianos. Ouvira até mesmo ‘arquichoqui’. O dialeto já dominava o gramatical italiano. Esta seria a nova pátria de todos.

Os filhos maiores souberam apoiá-lo na criação dos menores. Os homens se dedicavam ao ofício que denodadamente lhes transmitia. As moças lidavam com perfeição as tarefas domésticas.

Acordara cedo naquele dia, com o perfume do leite fresco a esquentar, o pão caseiro, a nata, o salame, o queijo e o café coado, todos a perfumarem a cozinha.

16 de junho de 1915 – Gigio estava pasmo. Diante do esquife e preparativos para o funeral de Carlo, arrumava suas idéias. Após a queda na escada interna da casa, Carlo parecia estar bem. Com apenas 51 anos, logo estaria na marcenaria com os filhos, curado e ativo. Como pudera tal fratura encaminhar-se para tal desfecho? A conclusão de que nada somos e uma queda mal curada pode matar fê-lo voltar os olhos para o alto. Um pensamento foi direto para a Itália, chamando os velhos pais para ajudá-lo a suportar a dor da perda do cunhado e amigo. Do trio apenas restava ele.

Sentiu um abraço. Era Thereza, a filha mais velha de Carlo que lhe disse: -“Tio, não se preocupe. Cuidaremos dos menores e tudo dará certo!”

To be continued.




segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma nova pátria ! - 3


Em 31 de outubro de 1900, o governo do estado do Rio Grande do Sul eleva a colônia Conde D'Eu à condição de município, que passa a chamar-se de Garibaldi.

12/04/1907 – Carlo estático diante de sua silenciosa mulher, esposa e mãe, ainda ouvia - ressoando em sua mente -, os gritos de ‘Aiuto!’. Buscava forças no passado para fugir do desespero do presente. Alguns anos antes, dezenove, - ele e Maria Santa juntos com Gigio, subiam a serra rumo a então Colônia Conde D’Eu.

Recordava mostrar para Maria Santa a imponência de árvores desconhecidas. Com troncos enormes e galhadas assustadoras, lembravam o pinheiro norueguês. Ali estava o futuro para seu ofício. Maria Santa sorria enigmática. Seu ventre já trazia o primeiro fruto dos nove que iria parir.

Lembrava também do bordo, magnífica árvore, ainda no aprendizado à marcenaria. As ferramentas e equipamentos chacoalhavam tinindo nos lombos das mulas. Estava feliz.

O pesado odor das velas queimando e dos copos-de-leite trouxeram-no de volta ao velório, Carlo nem percebia a ausência do feto feminino que causara a tragédia. Seu olhar vagueava entre a querida imóvel e os filhos. Sua esperança estava em Gigio, agora com Elisa. Certamente iriam ajudá-lo a criar a prole.

Therezinha, Gomercindo, Santo, Adilce Lucia Albina (Dirce), Celeste, Elide, Marcos Lourenço e Ana estavam estupefatos. A mãe não acordava mais..

To be continued


domingo, 14 de novembro de 2010

Uma nova pátria ! - 2



Carlo, sua esposa e o cunhado Gigio partiriam logo pela manhã. Todos estavam ansiosos. Entre seus pertences, o precioso torno movido a pedal e a maleta de madeira lavrada com os instrumentos essenciais para a prática da profissão. Esta fora absorvida junto à corporação de ofícios marceneiros. Os mestres-artesãos faziam da madeira em tábuas, móveis e objetos usados em decoração de interiores, no perfeito domínio das técnicas de entalhe e embutidos. Carlo ainda recordava um velho mestre lhe contando as vicissitudes da pátria-mãe, as lutas e revoluções. Sintetizando toda a informação, ficara claro que o Congresso de Viena havido em 1815, terminara com o regime napoleônico na Itália, dando o controle da península para a Áustria, restabelecendo antigos regimes feudais. A depressão social e econômica, além de uma série de revoluções marcou o movimento chamado de Risorgimento (‘re-despertar '), um clamor para a independência italiana. Em 1859 e 1860, auxiliado pela França, o reino Piemonte-Sardenha conduziu a luta contra a Áustria. Giuseppe Garibaldi e seus 'camisas-vermelhas' conquistaram a Sicília e Nápoles e por 1870 a Itália era uma monarquia, unida sob Victor Emmanuel de Piemonte.

Súbito, um pensamento ocorreu a Carlo: - 'E se não houvesse madeira adequada à marcenaria no Brasil?'.

To be continued

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Uma nova pátria ! - 1

Carlo e Maria Santa

Ao perscrutar dados familiares de imigrantes italianos, vi-me diante de um pedaço da história. Tentarei passar a todos, nas próximas linhas, a sensação que me assomou nesta aventura.

Aldeia Torre de Picenardi, província de Cremona – Itália, 1888. Lorenzo sentado diante do fogo que crepitava, estava pensativo, olhando para o nada. Madalena, sua dedicada esposa, aprontava uma sopa para o jantar, com passos silenciosos. A pergunta surgiu repentinamente: -‘O que pensas?’.

Lorenzo pigarreou e disse: -‘Carlo, nosso filho, sua mulher Maria Santa e o irmão dela, o Luiz, querem emigrar para o Brasil. Já falei com os pais dela. O Marcos e a Lúcia estão conformados. Parece ser a única solução contra a miséria e pobreza que assolam o país’. Sempre temíveis, os constantes conflitos militares fronteiriços, privilegiavam as convocações dos filhos de agricultores preferenciaimente. A Tripolitânia e sua anexação cobraria vidas por muito tempo ainda e a Líbia efervescia para mais um conflito generalizado.

Madalena persignou-se, como se as cruzes traçadas na testa, na boca e no peito removessem o laico do pensamento, do dito e do coração: - ‘Com nossa benção, eles devem tomar a rédea do destino!’.

Como milhares de italianos, Carlo, Maria Santa – então com 25 anos - e Luiz, - com 21 -, arregimentaram suas posses e seguiram para Gênova. Os navios saiam dali rumo à nova pátria. Para trás ficaram os pais, outros irmãos, amigos e um pedaço da vida,

To be coninued

domingo, 24 de outubro de 2010

O Corvo - Poe - 4/4

Conclusão da obra clássica deste poeta - inovador para a época - e que tão bem faz aos que apreciam leitura. Até a próxima edição

O CORVO
Edgar Allan Poe



"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".

'Profeta, profeta - ou demônio ou ave preta! -, dize a esta alma a quem atrais se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!' (Ilustração de Gustave Doré)

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh'alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

'E a minh'alma dessa sombra que no chão há de mais e mais, libertar-se-á... nunca mais!' (Ilustração de Gustave Doré)

sábado, 23 de outubro de 2010

O Corvo - Poe - 3/4

Prosseguindo a saga de quem enfrenta 'O Corvo', neste clássico de Edgar A. Poe, vai aí o terceiro tomo. Bebam as palavras e os sentidos nelas contidos, como raro espumante Don Perignon. Até amanhã amigos...


O CORVO
Edgar Allan Poe

(cont.)

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

'O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, o nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!' (Ilustração de Gustave Doré)

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o Corvo, "nunca mais".

To be continued

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O Corvo - Edgar A. Poe - 2/4

Alô aos amigos e amigas do blog. Antes da continuar com a poesia de Poe - O Corvo -, nossas boasvindas ao seguidor Guilherme Cahú.

Cada seguidor ou seguidora de um blog é tesouro especial do autor. Zelar por sua continuidade torna-se obrigação.

O CORVO
Edgar Allan Poe



(cont)

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

'Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.' (Ilustração de Gustave Doré)

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".

'Amigos, sonhos - mortais, todos - todos já se foram. Amanhã também te vais...' (Ilustração de Gustave Doré)

To be continued


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Corvo - Poe 1/4 - De escafandros e de borboletas...

Gente amiga! A saudade bateu e vim ver o blog. Aqui, sei, há quem aprecie uma leitura lúdica e ao mesmo tempo instrutiva. Daí Esopo ser mote e patrono, com suas belas fábulas. Ontem revisitei um filme que indico e recomendo: O Escafandro e a Borboleta. Vale a pena redimensionar nossas existências a partir da lição passada.

Há um poema de Edgar Allan Poe - The Raven ou O Corvo -, tido como um clássico e de leitura quase obrigatória. Poucos entretanto, leram-no. Farei a partir de hoje, algumas edições no blog, com a íntegralidade desta obra. Fernando Pessoa o traduziu, mantendo a rima em meio aos versos, sua excelente originalidade. Bom divertimento...


Um corvo

O CORVO


Edgar Allan Poe

Tradução de Fernando Pessoa (1924)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

'Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, vagos curiosos tomos de ciências ancestrais ...' (Ilustração de Gustave Doré)

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

'E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. Noite, noite e nada mais.' (Ilustração de Gustave Doré)

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Diga não, agradeça e sorria!

Todos temos um amigo em comum, o 'zé salamargo'. Costuma nos visitar com frequência, demais até, mas por uma simples razão: mora dentro de nossos neurônios.

Outro dia um carro de som fazia propaganda de um gás, aos berros ensurdecedores. Gritava: ' oferta imperdível...'. Parando em minha frente o motorista pediu : 'vai gás senhor?' O meu 'zé salamargo', antes de minha resposta, saltou-se com: 'só se for uma perdição inofertável!'

O ar embasbacado e surpreso do rapaz denotou o branco cerebral. Pedi desculpas, neguei, agradeci e sorri. Agora, toda vêz que ele passa no bairro, o som dos altos-falantes são bem mais amenos.

Sorrir, negar e agradecer, dominando o 'zé salmargo', pode adocicar nossas existências.

Até mais

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Acordo desacordado - Ortografia a ser domada

Alô amigos...

Pelo menos abordamos os penhascos de mais um acordo ortográfico entre nações com língua portuguesa.

Foi esquecido que na formatação - da escrita no Brasil - incorporam-se termos indígenas, africanos, regionalismos caboclos e tantas variáveis que nada têm a ver com Portugal ou com as outras nações lusófonas.

Tudo por uma homogeneização esterilizada do escrever. Quem corrigirá tanta produção literária, hoje disponível? Só a Internet abriga bilhões de palavras escritas em desacordo com estas novas regras, sem falar nas obras impressas dispostas nas bibliotecaas, salas de aula, etc.

Já era complicado ao tempo de Johannes Gutenberg - em 1462 - padronização da escrita -, imaginem agora. Quando estes sábios doutos resolvem algo assim, alguém deveria lembrá-los disto e quem sabe novos conceitos viriam libertar e não complicar.

Se há uma norma culta, ela dispensa estes transtornos e gera algo simples e de domínio público, respeitando as limitaações da sociedade que a gerou - ao menos espera-se -.

Imagino a raiva de nossos irmãos portugueses e os das nações que utilizam s língus portuguesa...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Acordo desacordado! Segue a trama do hífen...

Alô amigos... Ainda tenho a sensação de desabrigo com estas novas regras. Assim querem os lusófonos.

Ainda sobre o hífen, seguimos a trama do acordo ortográfico.

Prefixos ou 'falsos' prefixos, que terminem em vogal, com palavras que iniciem com vogal diferente, NÃO TÊM MAIS O HÍFEN, assim como as palavras compostas que o uso e o tempo consagraram: mandachuva, paralamas, paraquedas, guardachuva, contagotas, parabrisa, paraquedista, parachoques...

Palavras compostas que não tem elemento de ligação, e constituem unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, bem como as que designam espécies zoológicas ou botânicas, MANTÉM O HÍFEN: ano-luz, beija-flor, azul-escuro, tenente-coronel, couve-flor, erva-doce, erva-mate, bem-te-vi, mal-me-quermédico-cirurgião, cirurgião-dentista, segunda-feira, terça-feira...

Quando so prefixos forem: EX - VICE - SOTO, o hífen sobrevive: vice-prefeito, ex-marido, soto-mestre.

Quando o prefixo for: CIRCUM e PAN, e as palavras iniciarem com as vogais M ou N, vive o hífen: circum-navegação...

Quando Com os prefixos PRÉ, PRÓ e PÓS, com palavras de significado próprio, vive o hífen: pré-natal, pós-parto, pró-desarmamento, pró-biótico, pós-graduação...

Com as palavras AQUÉM, RECÉM, ALÉM e SEM, o hífen segue vivo: recém-nascido, sem-terra, além-mar...

O hífen deixa de ser usado nas locuções - de qualquer tipo -: cão de guarda, fim de semana, café com leite, pão de mel, sala de jantar, cartão de visita, cor de vinho, à vontade, abaixo de, acerca de...

Mas como não podia deixar de ser, exceções à vista: ÁGUA-DE-COLÔNIA, ARCO-DA-VELHA, COR-DE-ROSA, MAIS-QUE-PERFEITO, PÉ-DE-MEIA, AO-DEUS-DARÁ, À QUEIMA-ROUPA.

O acordo tem mais algumas questões que abordo no próximo blog. Ufa!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

'Acordo desacordado' - Seguindo a luta

Olá a todos! Antes, nossas boas-vindas para Alessa Ortega, a nossa mais recente seguidora. Aceite um cafezinho e sinta-se em casa com Esopo e nossas prosas.

Ainda sobre o acordo, seguimos mencionando - aos pouquinhos - as novas regras gramaticais desta última flor do Lácio, inculta e bela, mas que se nega estabilizar. Como escreveu a Michaela, estes assentos são como passarinhos e um dia voarão para longe.

Hoje, falo do hífen que separava prefixos ou 'falsos prefixos' das palavras.

- Quando estes prefixos terminarem com vogais e as palavras inicacrem com 'r' ou 's', desaparece o hífen e dobra-se a inicial, ficando: antessala, autorretrato, ultrassonografia. Minha opinião? As palavras ficaram feias!

- Quando os prefixos terminarem em vogais e as palavras também, desaparece o hífen: semiobscuridade, supraocular, contraordem, neoexpressionista, etc.

- O uso do hífen segue quando o prefixo erminar em 'r' e a palavra também: inter-racial, super-realista, hiper-requisitado, etc.

Observação:

- quando a palavra iniciar com 'h', o hífen permanece: anti-herói, extra-humano, supra-herbácea, etc.

- quando o prefixo e a palavra terminarem e começarem, respectivamente, com a mesma vogal, o hífen sobrevive: anti-imperialista, anti-inflamatório, micro-orgânico. etc

To be continued, senão cansamos...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Uma face humana para as chagas sociais!




Acabei de reler 'Uncle Tom's Cabin' e foi uma valiosíssima tarefa. Reli-a no original e recomendo um passeio por suas páginas, traduzidas ou condensadas. Passeio tão atual como se nos dias de hoje.

Abraham Lincoln, quando em presença de Harriet Elizabeth Beecher Stowe, autora de Uncle Tom's Cabin (um 'tio Tom' traduzido para Pai Tomás e sua Cabana) disse:

- "Eis a pequena senhora que causou a Guerra Civil em nosso país!".

Sabem porque? Por dar uma face humana à escravidão!

Este é o papel de quem escreve com consciência: dar uma face humana para as chagas sociais, como a miséria, a fome, o vício, a corrupção, a exploração do mito, a mistificação.

Agentes de transformação social, seria a mais decantada das profissões - e os bons escritores o são -, na busca de uma sociedade justa e equânime.

É a minha dica para quem tem sede de uma boa leitura...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O XIº Mandamento


Alô amigos do blog! O assunto de hoje surgiu quando fiquei sabendo que 15 alunos de uma escola estadual em Minas do Leão (aqui no RS), foram premiados com uma viagem até Portugal (15 dias de intensa programação) e por redações escolhidas entre tantas.

Uma das escolhidas, emocionou o embaixador brasileiro e trazia no texto um parágrafo assim:

Quando vou à escola, com minha mochila carregada de cadernos e sonhos, penso: "Puxa, meu pai agricultor, trabalha tanto, porque não consegue pagar suas dívidas e um jogador de futebol ganha tanto dinheiro?".

A lenda seguinte, surgiu-me na mente.

Moisés ainda resfolegava, recém concluída sua descida do Sinai. Carregando as tábuas dos Mandamentos escritas a fogo, jubilava pela salvação do povo escolhido e por extensão, da humanidade.

Eram onze normas.

Aproximou-se dele um repórter - ladino como poucos - para apanhar a primeira impressão do nobiliárquico ancião. Ao saber do décimo-primeiro, após absorver os impactos dos dez primeiros, ficou estático.

Dizia: 'Não criar mitos, nem mistificar!'.

Aquilo feria sua pretensa liberdade de imprensa. Resolveu agir rapidamente pois, como angararia verbas publicitárias para seu patrão? . Num momento de distração do mestre Moisés, quebrou a linha deste adágio e... deu no que deu.