quarta-feira, 28 de outubro de 2009

118ª - O Carvoeiro e o Engomador - A Pandorga

Si fueris Romae, Romano vivito more
Em Roma, sê romano


Bem-vindos! Nossa saudação para a Siusi, honrando-nos com sua escolha por acompanhar o blog. Com os demais seguidores, já formamos uma pequena 'Armatta di Brancaleone' (Exército de BRANCALEONE), não saqueando nada além da ignorância e o mau-humor.


A fábula de hoje, não parece ser dos idos de Esopo, porém respeitando a obra, aí está traduzida.

Aproveitando a prosa, ESSES OLHOS VIRAM...


...Os tempos em que brincar era assunto sério. Fui construtor de pipas (papagaios, pandorgas) de habilidade discutível, mas cheguei à obra-prima certa vez. Taquaras lixadas com caco de vidro, cola feita com farinha, papel de seda - cor encarnada -, barbante grosso para a circunscrição geométrica e guias, material levíssimo para a cauda e o mais importante: um carretel de linha grossa preta Corrente, com centenas de metros. Eu já havia construído formas quadradas, pentagonais, hexagonais e dupla cruz. Todas com razoável desempenho, mas alguém me havia dito que a forma de cruz circunscrita era 'o show'. Altura de 1,50 metros, braço com 75 centímetros colocado no terço da altura, enfim...obra feita, ficou linda.


Tarde plúmbea¹, ventos constantes e prenúncio de chuva. Fomos - eu e um amigo - soltá-la no descampado de uma via pública não-calçada, sem tráfego. Iniciamos a aventura. Uma só corrida e a pipa já dominava os céus. Contra as nuvens escuras, ela iluminava a retina, dançando e subindo velozmente. A linha zunia ao desenrolar, pois o carretel, gigante de madeira, rodava solto numa fina barra de ferro, tal carretilha de pescar. Sentia-me o dono do mundo. A pandorga quase sumia da vista, evolucionando ao meu comando. Era a única coisa visível em movimento nos céus, além das nuvens. Gritávamos de alegria! Embevecido², nem percebi que o carretel girava cada vez mais rápido. Repentinamente senti a mão leve. A pipa acenou-me um 'adeus', a linha sumiu dos meus dedos e nunca mais as vi. A chuva começou a cair. Homem não chora, mas as gotas daquela tempestade foram salgadas. O diacho seria explicar o carretel vazio. Se houve um Caçador de Pipas em Cabul, houve também um Perdedor de Pipas em Caxias do Sul. Nunca mais fiz pipas.

Teria o fato ocorrido para simplesmente ser contado aqui e distraí-los um pouco?


¹ adj. relativo a chumbo; plúmbico - que é feito de chumbo ou tem sua cor - que é tristonho, soturno, pesado.


² v.t.d. e pron. causar ou manifestar admiração profunda; enlevar(-se), extasiar(-se).


BOA LEITURA e até mais...


118ª - O Carvoeiro e o Engomador

Um Carvoeiro tinha o seu próprio negócio em casa. Um dia ele conheceu um amigo - engomador - e o convidou para viver junto com ele, dizendo que assim, deveriam ser os melhores vizinhos e

que suas despesas de administração doméstica seriam diminuídas. O engomador respondeu-lhe: "O arranjo é impossível até onde eu estou percebendo, pois tudo o que eu devo embranquecer você enegreceria imediatamente com seu carvão”.


Moral:


"Iguais se juntam aos iguais".



Um comentário:

Textos variados disse...

Sobre a dúvida final da história das pipas, não sei responder. Mas que foi uma bela história, isso foi!