quarta-feira, 25 de novembro de 2009

142ª - O Abeto e a Amoreira - O Leiteiro

Optima citissime pereunt
O que é bom não dura


Bom dia amigos! Mais uma vez Esopo (ou seus seguidores contistas)enfoca o orgulho como fonte de desilusões. Que adianta ser portentoso se chamarmos a atenção dos predadores? Cuidar com o que somos, sem diminuir nosso semelhante é solução também.
Nossa prosa de hoje traz à lembrança como algumas soluções advém com a simplicidade. ESSES OLHOS VIRAM...

...o leite a granel e ‘in natura’ ser entregue nas casas, graças ao serviço de um leiteiro e seu cabriolé¹. Seu Olinto (devia grafar-se Olyntho, tamanha a ascendência de sua descendência germânica no jeito de ser) tinha já certa idade, mas em qualquer estação do ano, com qualquer tempo, lá vinha ele, cifótico e encarquilhado² pela dura lida do campo. Sinceramente, eu não compreendia quase nada do que falava, pois arranhava o diálogo com expressões goethianas, mas o seu cavalo, este o entendia magnificamente bem, obedecendo-lhe a cada comando sussurrado. Ele (o cavalo) seguia sozinho até o próximo freguês – e nem sempre era a próxima casa -, ao perceber que o patrão já dispunha na caneca a quantidade de leite pré-estipulada, retirada do tarro³ metálico. Inúmeras vezes subi na charrete e de carona, ia por um ou dois quarteirões numa felicidade só.
Do leite servido assim, ao natural, tínhamos a nata que gerava a manteiga e vez ou outra o coalho. Nunca alguém adoeceu por questão da higiene neste manuseio e raramente o leite talhava e quando ocorria era muito mais pelo calor de um alto verão do que por deficiência do produto.
Seu Olinto surge em meus sonhos, coberto com o capuz da sua capa emborrachada, com a chuva pingando pelas costas, botas embarradas, sorrindo e protegendo com a mão o caneco, para a água não entrar. Seu cavalo a me olhar mansamente. Com forte sotaque alemão, me convida para subir no cabriolé e seguirmos os três, a servir aos fregueses com esta dádiva da natureza, rica e saudável, sem os atravessadores da hora.

¹ s.m.carruagem pequena, leve e rápida, de duas rodas, capota móvel, e movida por apenas um cavalo.

² CIFOSE s.f.. ORT desvio da coluna vertebral, de convexidade posterior, habitualmente localizado na região torácica, que abrange poucas ou muitas vértebras e que decorre de causas patológicas ou de hábito de postura impróprio.
ENCARQUILHADO adj. que se encarquilhou; engelhado, com rugas ou pregas, rugoso - p.ext. sem viço; murcho, ressequido.

³ s.m.vasilha em que se colhe o leite da ordenha.


142ª - O Abeto e a Amoreira

Uma Árvore de Abeto disse orgulhosamente para a Amoreira: "Você não tem utilidade nenhuma, enquanto eu estou em todos os lugares e sou usada para fazer telhados e casas". A Amoreira respondeu: "Você é uma pobre criatura e só chama a atenção dos machados e serras, sempre prontos para derrubá-la. Teria razão para querer ter nascido uma Amoreira e não uma Árvore de Abeto".

Moral:

"Melhor a pobreza sem cuidados que a riqueza com".

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