sexta-feira, 6 de novembro de 2009

126ª - Os Cães e a Raposa - As marmeladas

Furor fit laesa saepius patientia
Paciência tem limite

Bem-vindos todos! A fábula de hoje, mais uma adaptação de tantas outras, com o enfoque sobre a covardia e prevalecimento presentes quando da ausência ou impossibilidade de defesa. Para os leitores deste blog, com os barcos à margem deste caudaloso rio Vida, aguardando as águas baixarem e a correnteza acalmar, a prosa ESSES OLHOS VIRAM...como eram conservadas as frutas na década de 50, servirá de alento.

...Era um ritual. O tacho de cobre, adquirido dos ciganos, brilhava avermelhado, após a esfregação com cinzas e abrasivos (para eliminar o azinhavre). Limpa a enxada de madeira para mexer a mistura escaldante (chamavam-na de 'la mescola'). A lenha picada e empilhada para manter o fogo por horas. A balança de contra-peso a postos. As cestas das frutas (algumas descascadas outras com as cascas), limpas picadas e pesadas. O açúcar à disposição, já na proporção da receita. O alarido para a escolha do local da tarefa, ou sob a frondosa sombra de uma ameixeira, porém perto da porta do porão, para uma fuga estratégica no caso de chuva ameaçando no horizonte ou sob os pinheiros, próximo da cozinha e dos materiais do manuseio.
De novembro a fevereiro, todos anos, pêssegos, marmelos, goiabas, peras, maçãs,figos e uvas pretas, transformavam-se em dezenas de caixas de madeira forradas com papel celofane, cheias de um néctar hoje inexistente - talvez em alguma colônia do interior -.
Cada fruta com seu processo. Algumas direto ao fogo e açúcar até o final, outras com necessidade de peneirar (com peneiras de vimes) ou retiradas das polpas e novamente o fogo, outras com os adendos do açúcar e especiarias, enfim... uma arte não registrada ou escrita, passada de geração à geração, até perder-se nas dobras do tempo. Durante o cozimento, variavam os graus de quentura das misturas, da simples fervura até o salpicar de grossas bolhas a queimar os desavisados ao redor do tacho. As conchas de alumínio curvavam-se de tão aquecidas, na hora de transbordar para as caixas. O perfume da fruta da hora embriagava. O brilho nacarado da 'schimier' encantava. O testar do ponto de cozedura, ora pelo fio de açúcar, ora pelo correr da pasta na água, ora pelo sabor, só aos mais velhos cabia. Relembramos também as geléias de maçãs e pessegos, feitas no fogão, tão ou mais saborosas que as ditas 'marmeladas', fôsse qual fôsse a fruta...

O inverno era aguardado sempre com revigorado prazer. O pão caseiro, com uma generosa figada (entre outras), a surpresa de uma noz a dar um sabor exótico, uma xícara de café preto espumante, faziam parte das tardes chuvosas. Tempos que hão de voltar...


126ª - Os Cães e a Raposa

Alguns cachorros encontraram uma pele de leão e começaram a rasgá-la em pedaços com os seus dentes. Uma Raposa vendo-os, disse: "Se este leão estivesse vivo vocês logo descobririam que as garras dele eram mais fortes que os dentes de vocês".

Moral:

“É fácil chutar um homem caído.”.

4 comentários:

Dna. Mô disse...

Lindas lembranças dos verões serranos perfumados com os doces aromas dessas alquimias caseiras e insuperáveis...

E tão ritualísticos e extenuantes eram esses afãs, que nasci quinze dias antes por causa de uma grande maratona de figadas...

Quem provou, sabe...
Quem nunca viu, não conseguirá imaginar...
Beijos a todos.
Obrigada Vade!!!!!!!

Lucas disse...

Achei a história intertesante mais e um pouco melancolica e chatinha

vade mecum disse...

Oi Lucas! Bem-vindo. Agradeço o elogio sobre ser interessante a história e agradeço ter-me alertado sobre a chatice. Feliz de quem escreve e tem quem leia. Venha sempre. Ajudaria muito você indicar onde estaria a 'mesmice' - na prosa sobre as schimiers (marmeladas) ou na fábula de Esopo -. Um abraço...

beatriz disse...

Para o seguidor Lucas,
Para você ter achado “a história interessante mais (sic) e um pouco melancólica e chatinha” - referindo-se à narrativa que descreve a manufatura das marmeladas, figadas e uvadas, é porque infelizmente deves pertencer à geração do “tudo fabricado”.
Digo infelizmente, porque não conheceste e não vivenciaste o alvoroço das crianças ansiosas por “ajudar” quer descascando as frutas quer mexendo com a grande pá de madeira a massa dentro do tacho de cobre, mergulhando verdadeiramente no centro da história da carochinha, aquela que a Bruxa Má mexe a poção mágica.
Acredito que também não tiveste o prazer de provar, sobre o pão italiano, também caseiro, o gosto de festa dessas doçuras feitas com tanto amor por mães, avós e tias. Aliás, o ingrediente mais importante (e que jamais faltava) era sem dúvida o amor e a dedicação que elas colocavam naquela massa que fervia até “dar o ponto”.
Certamente, Lucas, tua geração, e isso eu não nego, experimentou muitos prazeres e facilidades do que a geração do “feito em casa”, mas tu queres saber eram bons tempos apesar de tudo.
Um abraço. Beatriz